13.4.06

A canção mais bela do firmamento

Assim me foi contado, na língua sem escrita dos unicórnios, que tão muitos anos haviam se passado quando houve aquele dia em que Rianno, criador de estradas, encarava um sol que não conhecia.

Chamou o sol da liberdade.

Só agora ia,
antes não podia.
Era fraco, ainda admitia.

,mas em força em si crescia,
a espada a si já pertencia.

Fez de si mesmo morada em tempos que tinham passado. A mordaça não havia tirado desde anos que caminharam para longe.

Hoje se viu capaz.
(faltava ainda força)
,mas era capaz.

Arranca a mordaça que tinha imposto a si mesmo, a mordaça que o calava pra fora, mas berrava você é um fraco na língua dos pensamentos.

Arranca a mordaça e encara a luz.

E como me confiada essa história, que eu impiamente - um pecador - escrevo para desgraça das tradições do povo de um chifre só. A ti relato.

Rianno cantou.

Não cabe aqui, mas não há outro momento: Tu te perguntas: Mas como pode a mordaça na boca por tanto tempo? Não comeria? Não beberia?

Agora a sabedoria do narrador me abala com essas perguntas, mas quando em ouvidor eu apenas ouvia e entretido chorava.

A minha resposta?
Não sei.

Podia mudar o conto e as letras, e nas pegadas que escrevo na história que não era minha torna-la a ti mais verdadeira. O povo unicórnio esta atitude nem mal julgaria.

As histórias tem pés e andam sozinhas.
(boas histórias andam muito, as vezes correndo)

,mas a mim mentira ela se tornaria.

E a única verdade que guardo nesse saco é:

Fez de si mesmo morada, em tempos que tinham passado. A mordaça não havia tirado desde anos que caminharam para longe.

E canta a liberdade em voz ganhada por empenho, e te digo que nestes sujos papeis não há espaço que não seja vil para descrever a beleza da canção que o criador de estradas cantava.

Não, - te digo - livros não foram feitos para canções. As letras foram feitas para emoções.

,pois se diz que em respostas àqueles versos cantados com tamanha maestria por cantor que nunca havia um soneto criado,

esses versos de liberdade,
que cantavam caminhos trilhados,
estradas a serem criadas,
que cantavam muros derrubados,
muralhas que seriam arrasadas.

Sonhos feitos,
Sonhos vistos,
Sonhos,
sonhos sonhossonhossonhossonhossonhos
sonhossonhossonhossonhossonhossonhos

Nesse momento os pássaros se calaram, se ruborizariam se tivessem pele.
Todos os instrumentos daquele mundo se quebravam, por que seu direito a música tinha sido negado.

E os deuses pararam tudo aquilo que podia ser chamado mundo.
E clamavam uma chuva que podia ser sentida por distância ainda não percorrida.

Porque quando chove, os deuses estão com os ouvidos mais próximos.

(me deu vontade de escrever sobre Rianno de novo, eu comecei a escrever sobre ele no que seria meu projeto de um livro, e pretendo terminá-lo um dia. Esse trecho contaria do dia que ele finalmente se considera forte o suficiente para não mais depender de seu povo e vai embora querendo vencer a morte e o tempo para reaver a sua vó)

4 comentários:

Olhos Clínicos disse...

Sempre encantada com o envolvimento que vc tem com suas criaturas.

Criador que sabe falar do cotidiano num mundo que só existe perfeitamente nesse cabeção.

Criador que fala de sentimentos e faz sentir tb.

Gostei do encontro com a liberdade.
Gostei do texto.
Tô gostando desses troços.
Comprarei (ganharei) este livro.
Ou melhor, publicarei junto, ao seu lado.

(...)!

Marcelo Soli disse...

O criador de estradas deveria aparecer mais vez por aqui...esse estilo de narrativa agrada aos olhos e ao coração!
Acho que é um projeto que deveria voltar...pois é de uma riqueza belíssima...

(depois de puxar o saco, será que vou ganhar um exemplar autografado?)

ariadne disse...

Oi Bruno, bom voltar a visitar seu espaço :-).

abração

ariadne disse...

Oi Bruno, bom voltar a visitar seu espaço :-).

abração