6.9.08

Pés no mundo

Imagem: Modèle Rouge, Magritte.


Quem não tira os pés de cima do mundo não chega a lugar nenhum. Fica naquela de colado e como que acostumado com o que vê, sempre acaba por não ver mais nada.

Eu que sou sujeito de pensamento longe, penso pra lá de distante disso.
Tiro meu sapatos, pra não ter peso nenhum nos pés, e corro descalço por aí...

Às vezes passo por relva e às vezes por pedregulho. Olho pro pé cheio de calo e unha encravada e meio que sinto vergonha e meio que sinto orgulho.

Quem não tira os pés de cima do mundo não chega a lugar nenhum. Escolhe conhecer um tudo que é menos menor que o resto.

26.8.08

Grande?

Era família grande. Mas era um tipo de família que só era grande porque podia pagar pelo adjetivo. Era um povo endinheirado que não gostava de nada míudo. Se perguntassem como uma família sem tio ou primo pode ser grande explicavam com toda pompa possível que era porque tinham uma longa história. Mas nesse caso longa história quer dizer que se pagou muito bem pra que alguém escrevesse em livro de capa dura um monte de causos de tempo que nem se tinha tanta certeza assim.

Mas de grande mesmo essa família não tinha nada. Gente rica não é muito boa com dividir as coisas. Essas famílias, que tem primo escapando pelo ladrão e com história tão antiga, que vira até mentira, só gente pobre mesmo tem.

Mas não é esse tipo de registro que se faz aqui... Essa é uma daquelas histórias que ficam nas entrelinhas, que a família grande em questão até pagaria pra apagar.

A família Franco Assis Albuquerque Luxemburgo, que de grande só tinha mesmo o nome, era cheia da grana, mas tanta grana que quando um menino se dizia homem, segundo suas tradições, podia escolher o qualquer coisa que quisesse ser.

Essa é a história de Pedro Franco Assis Albuquerque Luxemburgo.

Seu bisavô, Herculano Franco Assis Albuquerque Luxemburgo, aos doze anos já tinha decidido: "Quando crescer quero ser rico". Aos quinze com todas as letras, seu avô, João Franco Assis Albuquerque Luxemburgo, dissera: "Quero ser rico." E aos dezoito, seu pai, José Franco Assis Albuquerque Luxemburgo, gritara em plena festa de aniversário, enquanto contava qualquer das vantagens que só dizer o nome de família o dava: "RICO!!!!"

Era uma tradição de orgulho essa, e foi com muita apreensão que a família Franco Assis Albuquerque Luxemburgo esperava.

Doze anos, e Pedro Franco Assis Albuquerque Luxemburgo não fazia idéia do que seria;
Aos quinze não tinha muita certeza;
E a aos dezoito estava confuso.

Quando completou vinte anos, seus pais começaram a ficar preocupados, e acharam por bem pressionar o moço. Ele estranhou, -"Se era pra escolher qualquer coisa pra ser não seria melhor pensar bastante?" Explicaram que estavam só preocupados, que queriam o que fosse melhor pra ele, e que, afinal de contas, era pra decidir logo... (Como assim?)

De qualquer forma Pedro Franco Assis Albuquerque Luxemburgo perguntou se podia ser pássaro. Os pais estranharam pensando que o menino tinha ficado lelé da cuca e rapidamente criaram regras para o "que quisesse": "Quando dizemos, meu filho: Você pode ser o que quiser estamos falando de um trabalho, menino."

Pedro Assis Albuquerque estranhou, mas respondeu logo: "Então já sei!"
"Eu quero limpar janelas!"

Aquilo era esquisito por demais e a família, que de grande tinha a mãe, o pai e o avô doente com mais dois meses de vida, era só revolta. "Como assim limpador de janela?, porque filho meu não limpa nada!, como é que vou falar pras minhas amigas?, podia morrer sem esse desgosto!"

O menino explicou que achava bonito as coisas ficarem limpas e que nada o agradava mais que ver o pessoal da limpeza escolher pano, e sabão com todo cuidado... As janelas nunca ficariam sujas e um monte de gente poderia enxergar por elas, pois havai toda uma coisa bonita quando se olhava por um vidro sem mancha nenhuma.

Alguém pensou em dizer que era pro menino dizer "rico" logo e acabar com aquela palhaçada, mas perceberam, meio sem graça, que estavam muito ocupados e que aquilo poderia ser deixado pra depois.

Fato é que dois meses depois a família grande ficou só com duas pessoas. O avô falecera sozinho em um dia que os pais do rapaz estavam em viagem e Pedro Franco Assis Albuquerque Luxemburgo foi fazer aquilo que deu na telha sem perguntar nada a ninguém...

Ouvi falar esses dias, em uma dessas histórias que com o passar do tempo vai virar até mentira, que seu Pedro se tornou um limpador de janela de mão cheia. Era um daqueles que ficam pendurados em prédio, sabe? E era tão bom, mas tão bom, que ninguém nunca via sujeira, nunca mesmo. Era como se o vidro nem existisse. E justamente por isso ninguém lembrava que alguém limpava aquele mundaréu de janela. Mas o que era mais verdade que aquilo tudo é que seu Pedro teve três filhos e cada um deles teve três filhos...

Aquilo sim era família grande.

22.8.08

,momento adorável de vírgulas, adorável?, confuso, ruido?,

por que as vezes começar as coisas com letra maíuscula não é sinceridade, pode mesmo ser que não haja ponto final, se bem que pode ser que na morte... , e de fato a única coisa que existe mesmo são as pontes de vírgulas, andar com pés por vezes é complicado, não sabe?, e tudo, tudo mesmo conectado, tudo?, com os próprios pés?, onde?, confuso?, Pra onde?, não tenho certeza, mas acontece, sabe?,

,não há certeza?,

15.8.08

A última palavra

Homem: Pedra, quem tu pensas ser para com gigante arrogância pousar defronte meu caminho. Achas mesmo que pode decidir o caminho que eu, homem, devo tomar?

Pedra:

Homem: Pois não ouviu falar da superioridade de nós seres pensantes e de livre arbítrio? Que poder pensas ter tu parada ai sem ao menos perceber todo esse mundo a sua volta?

Pedra:

Homem: Tu não tem poesia, matemática ou sapiência. Nem mesmo instinto para fugir caso decidisse fazer um furo no teu ventre. Eu poderia fazer isso, não sentiria remorso nenhum. Deveria fazer.

Pedra:

Homem: Eu posso, tu sabes?

Pedra:

Homem: Pedra, por que não respondes?

Pedra:

Homem: Pedra, por que não respondes?

Pedra:

Homem: Pedra?

Pedra:

Homem:

Pedra:

Pedra:

Pedra:

12.8.08

Referência

O burguesinho da classe média gostava de conversar.
Dizia ao seu companheiro: "Caro, amigo, pois aconteceu dos meus tempos de mocidade serem de tamanha preocupação. Lembro-me como se fosse hoje. Meu pai sempre me dizia a dura realidade: 'Se não passar em vestibular não vai ter oportunidade de ter ensino superior.' Lembro-me da angústia que passei naqueles tempos. Felizmente o melhor aconteceu e agora posso ter esperança em um futuro digno."

-"Tempos duros, companheiro", dizia o seu amigo, como que assentindo para que o amigo prosseguisse o que dizia.

Sabia que ele gostava de conversar.



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O mendiguinho sem nome, de classe social não percebida no Nielsen, gostava de se expressar.
Dizia ao seu companheiro: "Lembro-me da única coisa que meu pai disse que fez algum sentido na minha vida: 'Sobrevive, ou irá morrer.'"

Iria continuar dizendo: "Na época ele era muito maior que eu, mas nada que um caco de garrafa na barriga e a escuridão nos olhos não resolvam", mas seus dentes estavam ocupados demais enterrados nos tendões da perna do amigo, que tivera que matar quando percebeu estar com fome.

O amigo, obviamente, não disse nada.

9.8.08

O2

Se intitulava investigador porque queria saber daquilo tudo que não deveria. Talvez você não saiba, mas os pensamentos pulsam no cerébro como sangue no coração. Não há o que fazer além de ficar admirado e enojado com as maravilhas/armadilhas engedradas pelo corpo humano.

Mas viver é um escolher o que se pode pagar e não esquecer nunca daquilo tudo que não se pode escolher.

Chama-se aceitar.

7.8.08

Sonha criança, sonha no que não vai se realizar...

mas faz, criança. Continua e faz

Porque na vida o bonito mesmo é tentar.

2.8.08

Maturidade

Criança descobre o mundo.
[Sempre acontece isso.
E arregala os olhos.

até descobrir que azul não é vermelho é encrenca,
cheira computador e manda e-mail de sonho em refrigerante,

criança sabe nada...

Depois é que aprende que só da pra pintar em papel.
E que quem faz muito, tá fazendo pouco.

Pois que acontece.
Criança descobre o mundo.
desaprende a sorrir.

Criança descobrir o mundo é mole, mole.

Quero ver adulto descobrir ser criança,

Ás vezes eu descubro,
ás vezes deixo coberto.

28.7.08

pétalas de dentes

pois que brota Sorriso de dentes em lugar nenhum
e como flor de alfalto rachado, espera por carro passar

é teimosa, pois esmagada trata de Nascer de Novo

e de Novo
e de Novo

pois Brota de onde tem Vida,
lá de Dentro de onde se sopram Verdades

do horizonte distante,
lá de Dentro guardado
então Permanece como que dedo em nariz

Acontece no escondido,

vem do que É de Dentro,
mas não É certo donde

ossos que estalam,
fezes que Se esbarram,

neutro Se finge,
Feliz, mas cínico

Fica

é sentimento,

uma Certeza que diz
não Se foge daquilo que vem de Dentro

.

se orgulha

9.7.08

passarinho,

Se o céu vira gaiola,
passarinho tem que voar.

Voa passarinho, voa
Que em ninho você não tem que pousar...

Poleiro tão pequeninho,
o vento agora portinhola,
E olha todo esse sonho
não tem nenhum portão que vai fazer parar...

Voa passarinho, voa
Que não tem onde você não vá chegar...

Tanta estrela a sua frente,
não tem como dúvidar,

Voa passarinho, voa
Que é no alto que você vai morar.

8.3.08

Novela sonora(episódio primeiro)

Naquele apartamento havia o rapaz e um monte de caixas. no angustiante momento em que se via era obrigado a sair daquela apatia que sempre o definiu como homem de ócio. era decisão complicada aquela, porque quando por fim decidisse agir, iria assumir aquela temida posição de o homem da casa.

apesar do status de vazio já tivesse sido retirado daquela moradia desde que aquelas diversas caixas tivessem chegado ali com a mudança. esse era o sentimento que ainda passava por aquele lugar.

ficou admirando todo aquela labuta que iria ter, e para afastar a responsabilidade o rapaz meio que inconscientemente puxava um daqueles cigarros que sempre prometia a mãe que iria parar de fumar.

no começo foi para a janela e depois sentou em uma das caixas, ia sentar. quando ia encostar a bunda na caixa Ouviu,

 

Só podia ser um anjo que cantava...

11.11.07

Tá tirando onda, hein!

Amo Você, no escurinho com luz de cinema.
Amo Você, sorriso grande que só aparece quando é de verdade.
Amo Você, mente de economista medos de menina.
Amo Você, vento levando cabelo de frente ao rosto.
Amo Você, no final de semana, dormindo o tempo todo.
Amo Você, lágrimas de alegria.
Amo Você, um monte de incertezas em meus planejamentos.
Amo Você, com a "minha vida mudando a cada quinze minutos na manhã de sábado"

Amo Você com todo minha paz de espírito planejada e insistente. E amo tanto, tanto e tanto, que até pego fogo.

18.10.07

O quanto se pode saber?

É mesmo questão de cabeças grandes mesmo essas coisas de pensar.(sem piadas por favor) O fato é que parece sempre existir um monte de tudo pra aprender de qualquer pouca merda.

Qualquer cantinho da sua sala ou da sua conciência. Desde os créditos que sobem no final da projeção do seu filme favorito até o motivo que fazia Carlota Joaquina preferir roupa de baixo amarela(será que usava mesmo?). O fato é que o saber se acumula nessas cabeças grandes e cheias de certezas virando uma espécie de religião.

Um cara pra lá de bacana no meu ver foi o Sócrates. Putz, o maluco ficou um tempão observando e pensando no mundo. Devia ter a cabeça do tamanho de um ônibus. Acontece que depois de quase explodir o tutano ele chegou com a brilhante frase: "Tudo que sei é que nada sei."

!!!

Calma aí, não ria ainda. Imagina só na época. Sujeito granfino ia procurar o homem sábio na Grécia(Grécia mesmo?) e ele não respondia nada, só perguntava. Que porra é essa? Vos pergunto.

Mas pensa um pouquinho só na época. Se bem me lembro das minhas mau dadas aulas de filosofia e a pseudo-aula-livro filosófica ministrada no Mundo de Sofia, os gregos tinham acabado de deixar de acreditar em um modelo místico-religioso de verdade no mundo. Como eu costumo questionar essas coisas, acredito que na verdade só quem entrou de bonde nessa história tenham sido os "endinheirados" da época. Dúvido que servo ou escravo, ou como quer que chamavam a classe dos domindados tinha entrado nesse lance. Quase como o lance de Inclusão Digital, saca? Muita gente ainda deveria acreditar que podia responder tudo com oração, ou oferenda, oráculo ou sei lá o que.

O fato é que os ban-ban-bans da época acreditavam no poder do discurso. Como não existia um a verdade absoluta o lance era saber enrolar a língua e dar volta. Na verdade? Era um monte de advogado misturado com Zé Carioca.

Aí, chega esse sujeito. Que possivelmente gastou parte do tutano dele matutando aquilo tudo. Falou que verdade, algo universal que servia a todos existia. Só que ele não tinha descoberto...

E eu aqui fazendo pesquisa sobre montagem(ou seria edição de vídeo, um termo mais atual) cinematográfica(as vezes rola na internet) de trailers(ih, expressão estrangeira tem que ser com itálico...). E pra isso tenho que estudar até teorias de cognição e antropologias consumistas a parte...

Era sobre o que que agente tava falando mesmo?

(Só pra constar a existência de Sócrates é questionada. Alguns estudiosos desse tão muito que se tem pra se saber afirmam que ele poderia ter sido uma criação de Platão)

Todas as informações contidas aqui não tem embasamento científico nenhum. Muitas possívelmente estão erradas e sendo assim não servirão para conclusão nenhuma. Alias nem pense em usar isso em algum trabalho sem ser vítima de riso.

2.10.07

Projetos arquitetônicos inflamáveis

Um rapaz jovem atropelou uma criança pra atender celular,
O menino perdeu uma perna pra convencer os amigos que sabia nadar,
O senhor colocou fogo na casa por que não queria precisar da esposa pra cozinhar,

E naquele preciso momento fizeram todo o esforço do mundo calculando com cabeças acostumadas a sonhar maneiras que os fizessem voltar no tempo.

O rapaz jovem tentou ligar do celular pro todo poderoso,
O menino tentou nadar de costas no mesmo lugar,
E o senhor procurou um isqueiro que fosse ao contrário,

O celular não tinha crédito pra uma chamada tão distante,
E o tubarão que já tinha comido uma perna, comeu duas,

E o senhor, mais velho. Por se considerar tão sábio, chorou quando percebeu que não se fabricavam ainda isqueiros ao contrário. Ele e sua senhora tinham levado muito tempo pra prosseguir a contrução daquela casa, nem pronta ainda estava.

A sua esposa nada dizia com a boca. Mas chorava sem lágrimas e berrava com todos os outros sentidos que tivesse.

Foi uma pena pra quem visse, aquele homem com seus vários cabelos brancos chorando como um bebezão. Na verdade era até um pouco ridículo aquela prova de fraqueza. Chorava com as lágrimas que não rolavam do rosto da senhora sua esposa.

E naquele momento se espantou, a mulher chorava pra dentro e as lágrimas deslizavam pelo rosto dele. Eles iinham uma ligação do agora, ontém, amanhã e cada segundo que suplantava qualquer tijolo que estivesse fora do lugar.

O senhor percebeu que a casa estava dentro dos dois.

Pegou um dos carvões que sobrara do incêndio e desenhou uma casa. Era muito mais bonita que a de antes.

Tinha um monte de promessas que a outra não tinha. Só não era a prova de fogo.

"Quer morar aqui?"

26.9.07

Saudade grande

Saudade grande de você,
daquelas que só sente quem está muito tempo junto,

uma Saudade de verdade que conhece aquilo que se espera estar ao lado,

Saudade da cara amarrada, que eu sei fazer,
Saudade daquela risada espontânea, que aparece em qualquer momento,
Saudade daquilo que faz vulnerável que faz buscar proteção,

Saudade daquilo que sei onde está,
Saudade de nossos planos,
Saudade do que reclamo,
Saudade do que gosto,

Saudade do que sempre acontece,
Saudade de nós dois
,

17.9.07

Relógio

Quando coração é relógio, essa coisa de tempo fica meio estranha.
Imagina que marquei às uma e meia.
Cheguei com dez minutos de adiantamento.
Ela estava atrasada.

Cismou de chegar às uma e quarenta.
Na hora certa.

14.9.07

o eterno sonhar das letras mínusculas em seu coletivo constante

foi em texto que se força a brotar, coisa esquisita de letras a pulular dentro de cabeça, se forçando pela boca e saindo pelos dedos,

era um monte de letra que ia se amontoando lado a lado, com a função apenas de existir, de exigir a vida negada de uma mente distante, como que palavras para descrever o eterno estado presente de contemplação do nada,

e como que por mágica, no meio daquela confusão de sentidos brota algum objeto comum: o coletivo,

por que naquele momento sem sentido as letras,palavras,frases se dão conta de que algumas palavras insistem de se fazerem IMPORTANTES. se perceber chega a ser agressivo isso de se mostrar MELHOR.

agride mesmo

,mas o estranho é que foram necessários seis parágrafos completos para haver contexto que permitesse três das GRANDES.

façamos um sétimo com uma fonte menos serifada e com mais uma vírgula,

28.8.07

Do dia que Deus se foi

Na verdade, já tinha que ter acontecido há muito tempo mesmo. Acontece que Deus ficou puto.

,mas puto da vida.

No norte da Argentina uma mulher com medidas nem tão largas assim, olhava pra um pedaço de bolo. E dizia com a boca, pouquinho tempo depois de dizer com os olhos: "Isso não pode ser de Deus..."

E foi nesse dia que como um trovão sem proporções, ouviu-se em todos os cantos do planeta:

"FODA-SE"

Deus queria saber, onde cargas d'água inventaram de dizer que um mundo esférico pode ter canto... Por que ele não teria responsabilidade se o chocolate era gostoso ou o sexo irresístivel? Afinal, de contas quando foi que o nome de Deus não podia mais ser associado com as coisas que eram boas?

Nesse momento você deve estar pensando em díluvio, neguinho mudando de língua, nesse papo de apocalipse, né? Que nada não rolou nem um torózinho. Mas algo mudou.

Tudo que era tudo deixava de acontecer, e o agora era uma coisa tão constante quanto que se esperava que o futuro deveria ser.

De verdade? Virou tudo um saco... Faltou algo na vida que as pessoas não sabiam explicar...

Não tardou muito pro desespero tomar conta da humanidade. Afinal isso era assunto pra lá de sério. Juntaram um monte de país com nome nem tanto esquisito assim pra discutir o que fazer.

Decidiram que alguém deveria ser designado pra dar um toque no Nosso Senhor. E tinha que ser alguém importante, e de respeito. De preferência alguém que já tinha andado de avião, e por isso acharam que uma boa escolha seria o Papa. Mas não é que o cara assumiu todo se borrando que aquilo deveria ser um fenômeno climático, e que na verdade a igreja já sabia há muito tempo que Deus não existia nada, que era tudo intriga da oposição.

O pior é que nem estranharam tanto assim.

Então decidiram que era pro presidente dos states resolver a parada. Ele com toda pompa que um sujeito pode ter e na maior cara de pau do mundo respondeu que se Deus se escondesse era por que tinha medo dos seus mísseis.

Podia nem ser estranho, mas que assustava, assustava.

E no meio de uma discussão onde algumas emissoras questionavam se mandariam repórteres resolverem - não sabia se daria audiência -foi que um menininho sem tamanho de tão pequeno resolveu que iria conversar com o Todo Poderoso.

Todo sujo de chocolate e cheio de catarro escorrendo o moleque subiu a montanha onde se encontrava o Criador. O presidente dos states afirmou que queria ver se Deus tinha mesmo coragem de descer enquanto o Papa fingia que rezava. Enquanto isso as emissoras exibiam aquilo tudo ao vivo.

Quando chegou lá em cima tava o Senhor se bronzeando e logo que viu o menino todo sujo falou todo relaxadão. "Sabe que nunca tive tempo de aproveitar isso".

"Deus?"

"Pódizê."

"Você não vai descer, não?"

Aquele ia ser um não cheio de reticências, daqueles que depois de dois minutos de reclamação nem se presta mais atenção no que se fala, mas no momento que puxava o ar pra dizer aparece uma senhora sem dente toda preocupada.

"Ô, menino. Vê se pode vir aqui em cima atrapalhar o descanso do Nosso Senhor. Eu tava preocupada com você. Vem, deixa eu limpar esse seu nariz escorrendo."

E foi assoando o nariz da criança, sem cerimônia nenhuma que a mulher ia se desculpanda.

"Por que a senhora faz isso?"

"Ah, me desculpo, seu senhor por que seu descanso era por demais merecido, não sabe..."

"Não, não. Por que subiu essa montanha toda atrás desse menino?"

Com todos aqueles caminhos que a estrada da vida faz nos rostos de pessoas de verdade a senhora fitou o horizonte por um tempo.

"Como é que mesmo o nome daquela belezura toda bonita que tá na Bíblia mesmo? O amor..."

E Deus sentiu tanto orgulho daquilo que teve que voltar a trabalhar. Respirou fundo e lembrou do motivo de tudo aquilo.

Quando aquilo tudo terminou as câmeras já não estavam mais ali.
O presidente dos states falava sobre invadir a primeira cultura diferente que conseguiu pensar para mudar de assunto.
E o papa agradecia aos céus pelo retorno de Deus.

As coisas tinham voltado a acontecer.
E o chocolate continuava a ser gostoso.

Sinceramente, esperava um pouco mais desse texto em nível de produção textual mesmo(tô meio enferrujado, né. De qualquer forma acho que ele tá bonito, e defende o que acredito de verdade que a vida seja. (sem nenhum medo de ser piegas)

20.8.07

No topo

E foi assim, em tempos de frio, que as coisas degringolaram. Era coisa de aparecer nuvem preta dentro de sala e chover em nuvem branca... De verdade? Essas coisas que confundem topos de montanhas só fazem questionar se é montanha ou monte...

Mas no final das contas é bem fácil duvidar da altura de algo em que se está no topo.

7.4.07

Deu na Globo

Eram exatamente vinte e uma horas e dezenove minutos. Isso mesmo, em pleno horário nobre. O Boletim extraordinário tinha motivos para cometer a afronta de interromper a novela no momento que a mocinha, bonita e de família, descobria que o rapaz, seu noivo, era cara mau e o seu antigo amor, na verdade era bonzinho. Tinha que ser coisa pra lá de importante.

Era

A Globo afirmava com veemência: Deus não existia mais!

Foi um alvoroço. Gente se matando e Igreja fechando. Teve gente dizendo que a Nasa ia procurar pra ver se achava pra onde Deus tinha se metido. E os cientistas alardeavam que ninguém nunca tinha provado a inexistência de Deus.

(Ninguém deu ouvido aos cientistas.)

A Globo preocupada com a situação tentou amenizar as coisas. As pessoas com calma e em fila deveriam seguir suas recomendações, as instruções seriam dadas nos intervalos comerciais de forma a não interromper mais a programção normal. Foi um período turbulento. A emissora tentava redefinir o que era bom e o que era mau, as pessoas se amotinavam na sala pra prestar atenção, não eram tantas regras assim, mas as pessoas podiam esquecer. Por sorte a Globo era muito sábia, e passava e repassava as novas ordens de moral o tempo todo.

As intruções eram claras:

Se Insira e Consuma, mas não se insira se não for pra consumir, porque consumindo você está se inserindo, e inserindo você é consumido,

A justiça da Emissora não reconhecia limites. Reconhecendo a dificuldade daqueles tempos em diferenciar o certo do errado, e ciente da confusão que as pessoas tinham em saber o que era escolha e o que não era, Ela afirmava de meia em meia hora com um monte de imagem colorida e rápida pra ninguém poder mudar de canal:

Vocês são livres.
Apenas sigam as instruções.