22.5.09

Aquilo tudo cinza antes do acontecer

Momento cinza: soma de pequenos instantes não passiveis de medida que precendem o movimento on do on/off do computador. E era. Existia O olhar que refletia, julgava, apontava naquela monotonia que era o não acontecer.

E sabia, intuia, conhecia, embora evitava, que cinza também era o pensamento do momento cinza.

Não acontecia
existia?

Turn on: luzes, sons, símbolos e o raio que o parta de tudo que não era, mas por fim era, o despertavam da crédula, consciente e cruel mediocridade que se insinuava sobre si em pantera sensual, piranha e marginal e agressiva e filha da puta.

Era e não era diante daquilo tudo que não é, tem luz e se crê.

ícone+clique(um só, é um Mac)+programa=música, estranho, por vezes a solução de toda uma vida era a canção certa,

Sabia de photoshop e de Coreldraw e desenhou portinhola. Arremessou cadeira de rodinhas e foi com os pés pra lá.

Foi morar na canção e nunca mais foi visto por aqui.

Epílogo: obviamente perdeu a recisão contratual e seu fundo de garantia ficou retido na Caixa Econômica Federal.

Aconteceu
E foda-se por isso!

17.5.09

sol e lua

- Como podes, astro, me alumiar tanto se só me sabes de muito longe?

- É porque te invento.

11.5.09

Os quatros pretendentes da plebéiazinha

Era uma vez uma plebéiazinha*. Um dia muito aborrecida em casa pediu que seu pai assentisse que fosse passear pra longe. O pai que amava muito a sua filha permitiu que ela fosse desde que não passasse da floresta.

A plebéiazinha foi então. No caminho encontrou um princepezinho muito formoso com quem no seu caminho trocou olhares.

Ele não parou,
ela se apaixonou.

Como que era plebéiazinha desandou em chorar e um beija-flor, que na verdade era fada, vendo aquilo tratou de consolar a pobrezinha.

"Menina, não chores. Na quarta vez que ver a pessoa que ama, casarás.
Mas haverá de aproveitar esse tempo, pois que viverá apenas mais um ano depois do acontecimento."

A plebéiazinha não se importou com o pouco tempo e ficou feliz a imaginar o matrimonio.

Eis que o tempo passa e nada do princepezinho aparecer novamente e assim não tardou muito para que a plebéiazinha se sentisse aborrecida mais uma vez. Foi ter com o pai e pediu que a deixasse passear mais longe. O pai, mesmo preocupado com a filha indo tão longe, consentiu que ela fosse desde que não passasse do rio.

A plebéiazinha foi então. No caminho encontrou um poeta cheio de palavras que pediu que se casassem. Ela disse que não, pois esperava que outro viesse e o triste poeta foi-se embora com tristes palavras.

Passado mais algum tempo e a plebéiazinha ficava mais uma vez aborrecida, pois o princepezinho ainda não havia aparecido. Foi ter com o pai mais uma vez procurar conselhos sobre lugares que ainda não havia conhecido. O pai falou que era pra ir se quisesse, mas que achava melhor que não passasse das montanhas.

A plebéiazinha foi então. No caminho encontrou um filósofo cheio de razões que pediu que casassem. Como da outra vez ela respondeu que não, pois esperava que outro viesse e o filósofo foi-se tentando com suas tristes razões entender o triste acontecimento.

Como que não era mais novidade a plebéiazinha ficou mais uma vez aborrecida. Dessa vez não falou com o pai e disse que casaria com o primeiro que passasse o caminho.

A plebéiazinha passou das montanhas dessa vez e cruzando no caminho com um plebeu logo o pediu em casamento. Ele surpreso com o sucedido respondeu da seguinte forma.

"Ó, que acontece mesmo o esperado, pois que nos tempos de minha infância a vi passar no meio de meu caminho e me apaixonei. Na época, mesmo com todo tempo do mundo fiquei sem palavras e com medo preferi seguir meu caminho.

Depois sentei em cima de uma pedra e comecei a chorar, pois achei que nada mais tinha no mundo que pudesse querer. Um beija-flor se comoveu comigo e disse-me que era pra ter paciência, pois seria a dama que viria me pedir em casamento.

Mais tarde, ainda moço, quando me sobravam palavras e me faltavam razões, nossos destinos se cruzaram mais uma vez. Me enchi de coragem, me esvaziei de paciência e pedi sua mão e uma vez você recusou

Depois de algum tempo, quando eu tinha as razões e as palavras certas, por acaso nos encontramos de novo, vendo que a senhora não vinha me oferecer aliança ou coisa que o valha, perdi a paciência e pela segunda vez você recusou meu pedido.

Pois agora vejo que o beija-flor era sábio e não sei se fico feliz ou triste com o sucedido, pois que agora na minha velhice não tenho mais nada pra oferecer a senhora tão formosa."

A plebéiazinha ficou tão feliz com aquilo que sempre foi seu sonho a se realizar que aquele um ano durou mais que sua vida inteira, mais que o sempre. E nunca faltaram palavras, razões ou qualquer tudo para justificar tanta felicidade.

Isso meio que surgiu de minha mente e eu, assaltado, tive apenas o trabalho e a obrigação de registrar. Surgiu influenciado diretamente pelo livro Contos Populares Portugueses que venho lendo.

*Não sei se essa é a grafia certa para "plebéiazinha", mas acontece que gostei de escrever dessa forma e assim ficou.

9.5.09

Gosto de olhar pros meus pés 
lembro que sou responsável por onde chego  

Gosto de olhar pro céu 
descubro até onde minha vista alcança.

26.4.09

Beatriz da Fonte Seca Só

Essa é a história de Beatriz da Fonte Seca e de Carlos Barcas, ou é a história Só da Beatriz da Fonte Seca, já que de Carlos mesmo, o Físico, tem muito pouco. Por outro lado, penso que talvez seja complicado chamar essa história de Só da Beatriz da Fonte Seca, já que a pobrezinha não tinha controle nenhum sobre a forma como os acontecimentos se desenrolavam.

Foi assim que sucedeu.

Beatriz da Fonte Seca Só acontecia quando via Carlos Barcas Físico. As palavras de um eram como que cartas que encontravam destinatário certo no outro. A menina ia somando infinito com infinito e via, sem muito esforço, que se colocasse Beatriz da Fonte Seca com Carlos Barcas em fogo brando juntos em uma panela grande, iria ter um lauto banquete que orgulharia só pelo cheiro. Só.

Acontece que se na conta que tinha feito tinha o infinito, o número de vezes que Beatriz da Fonte Seca e que o Carlos Barcas Físico se encontravam era bem finito. O reduzido era de só umas duas ou três vezes. Só.

Mas Beatriz Só era uma mulher de dotes. Era mesmo, pois além de cozinheira de mão cheia sabia bordar como ninguém. Esses dotes ela não fazia quando era obrigação, só gostava mesmo quando estava inspirada. Só.

Só Beatriz bordava igrejinha em cima de colina tão bonita, o dia tinha sol e núvem, e os convidados ficavam todos dentro do templo que apesar de pequeno dava pra uma infinidade de gente. Tanto era que as mães perdiam suas cabeças enquanto brigavam com as crianças para que ficassem sentadas nos bancos enquanto esperassem. Beatriz ficava do lado de fora, esperando Carlos Imaterial chegar, Só.

Só Beatriz bordava casa com parede pintada de branco com tanto esmero. Tinha grama e cachorro, e as crianças corriam de um lado pro outro dentro da casa arrumada. Era uma gritaria só. Beatriz e Carlos cismaram, na doideira mesmo que é a vida, de terem cinco filhos. Quem disse que era fácil aquela história de procurar aquela criançada toda pra dar banho ou colocar dentro de ônibus escolar? Quando finalmente se conseguia arrumar quatro, uma sumia. Quando achava uma, todas as outras estavam correndo em desalinho. Beatriz esperava na cozinha, Carlos Imaterial chegar do trabalho, Só.

E aquela história que não era da Beatriz de verdade, já tinha tantos bordados que a Beatriz Só percebia que nem lembrava mais do Carlos Barcas Físico. Pois que tinha acontecido a tantos bordados atrás, que ela procurava em vão pelo Carlos Original apenas tentando lembrar do que se tratava aquele monte todo de pano. E foi que Só se encontrou. Só.

Demorou um tanto até que a Beatriz da Fonte Seca encontrasse qualquer Carlos bordado em qualquer canto. Sim, ele estava lá, mas não era em qualquer lugar. Beatriz Só o tinha bordado no lado esquerdo do peito. Aquilo era Físico sim, mas não era Carlos.

Era Beatriz, Só.

25.4.09

Olhos com desejo de céu

Meio que repentinamente me olha e pergunta: "Mas o que é que faz o avião voar?"

Foi em um daqueles momentos em que você definitivamente não esta preparado pra uma pergunta profunda desse âmbito. A van que me levava ao destino carioca trilhava seu caminho sobre a ponte enquanto aquele rosto definitivamente com traços nordestinos se fazia do meu rosto alvo.

Os olhos eram de um azul celeste que contrastava em absoluto com sua pele bronzeada, talvez pra refletir o desejo de céu que tinha dentro de si.

E eu, no momento, preocupado com o trânsito e desprovido momentaneamente de qualquer tipo de sensibilidade dei uma resposta qualquer tentando inocentemente apagar o ânimo do rapaz: "As asas?"

Fez uma cara de humildade, com uma pitada de desaprovação e muito de desapontamento. Aquela não era a resposta certa.

"São as turbinas, né? Queria trabalhar com isso. Essa ciência de avião." Dizia com um sorriso infantil bobo, que o ser humano de sexo masculino nunca perde por inteiro.

Voltou a olhar maravilhado pra aquelas turbinas, asas e toneladas que deslizavam com tanta leveza sobre o nada.

"Rapaz, você me deixa no JB?"

22.4.09

Passou

E quando me dei conta vi que a vida era um mundão de coisa pra se fazer que nem dava.

Foi ai que inventei um monte de fórmula com matemática nenhuma pra calcular o que queria e o que não queria fazer.

Ainda nem dava.

Decidi então ser sujeito com pressa de vida, pois que pra quem espera a vida acontecer a vida não acontece.

Passa.

21.4.09

irônia

-ei, tio!
-Estou ocupado e com pressa.
-tô com fome, tio!
-Ih, menino. Tô sem dinheiro nenhum.
-ô, tio dá uma ajuda ai, pô!
-Tenho umas moedas aqui. Toma e me deixa em paz...
-preciso de moeda não, tio. tem nenhuma educação no bolso pra mim não?
-Como é que é?

16.4.09

Acontece de ser verdade

Acontece de ser verdade. É sempre assim.
Foi que hoje é dia diferente.

Aconteceu quando os olhos de descaso, daqueles que se vê tudo menos o que está na frente do rosto, que passarinho passou na frente e despertou o rapaz do transe. Olhou meio que espantado com aquela sensação de lembrança adormecida, os olhos miravam o indicador dormente. 

Acontece que lá nos idos da sua mocidade colocou laço no dedo. Não lembrou o porquê daquilo na hora, mas que aquela sensação fazia bem, ah, isso fazia.

Meio que veio coragem sabe se lá Deus d'onde e o rapaz DECIDIU os sorrisos de seu dia.

Olhou pras caixas cinzentas de janelas que o apertavam no meio, e DECIDIU apontar pro céu.
Era nuvem bonita, sol que brilha, alto de árvore e folha caindo.

DECIDIU que o vento sorria no seu rosto e choveu
DECIDIU que se parasse ficaria mais limpo.

DECIDIU não ouvir pra todos aqueles poetas que arremessavam palavras que não acreditavam.
DECIDIU que essas pessoas eram tristes nem se entendiam direito.
DECIDIU não pensar naquilo.

E, no meio daquilo tudo, com o dedo em riste pra si mesmo, lembrou.

Lembrou daquela criança ruiva de cabelos encaracolados que corria e ralava os joelhos. Que chorava por que tinha medo de crescer e chorou também.

A criança falou: "Moço, você é grande. É feio chorar. Brinca comigo um pouquinho?" 
Ele brincou. 
Ele viu. 
A criança era maior que tudo que ele era ou tinha feito, era ela que guiava seus passos de adulto por aqueles caminhos de asfalto e setas que não apontam pra lugar nenhum.

E foi no meio daquela brincadeira infantil que brotou em seu pensador: A criança não tinha medo de crescer, não que ela soubesse disso na época, colocou o laço pra ele pudesse entender aquilo com olhos de adulto: "Tens o compromisso de lembrar tudo aquilo tu és."

Mais de vinte anos os separavam e mesmo assim DECIDIU agradecer o moleque que nunca largou da sua mão, e sorriram um pro outro.

Tudo iria ficar bem.

13.4.09

Dói

DOEU., E quando foi DOR, os olhinhos apertaram cismando em mastigar tudo quanto era luz em volta.

DOR quando é DOR mesmo faz isso.

fernanda quando DOIA, preferia fechar os olhos e contar até 10.

PATRÍCIA apagava todas as luzes de casa.
PATRÍCIA não morava sozinha.

7.4.09

Boys don't cry

Quando em míudo era de um chororô danado. Até que um dia mamãe repreendeu com aqueles olhos severos, que até hoje só não me castigam melhor do que eu mesmo: "Menino-rapaz, pois não sabe que é muito feio homem ficar chorando? Então aprende a guardar e não fazer em qualquer lugar."

Foi naquele dia que aprendi a ser forte.

Algum tempo depois que nem consigo mais calcular com cabeça de adulto, vi meu pai chorando a primeira vez. A visão daquele homem que sempre foi o meu exemplo de poder e virilidade em um estado tão frágil me causou um impacto que não sei explicar direito até hoje. Havia alguma coisa errada ali, aquilo não era certo. Arregalei os olhos, como acho que sei fazer até hoje, e fiquei assustado e talvez, confesso, um pouco admirado.

Meu pai já tinha aprendido a ser forte e chorava escondido.

16.3.09

eis o problema de enxergar com canto de olho...

canto de olho faz asa parecer corcunda

mas se canto de olho confunde

olho inteiro machuca

30.1.09

Robores

-mas num eh "robos" qui se diz?
-I eu qui sei? nunca vi dois junto.
-Já viu um só? O.o
-Tamem naum.


...


-Axu qui vai xuvê...
-Pruquê se tá dizeno issu?

-Segundo CARVALHO,

(...)"
encontrando formas de decifrar as ocorrências do meio ambiente através do saber tradicional, observando fenômenos e classificando-os fazendo do “saber selvagem” a porta de entrada das necessidades de viver harmoniosamente com o ecossistema. Neste contexto o sertanejo busca proteção até na religiosidade, na fé, haja vista, Ter como um bom inverno a possibilidade de chover no dia 19 de março – dia de São José. O que fica claro é que as conseqüências trazidas pela seca, faz o sertanejo sair em busca de um leitura dos fenômenos que a natureza proporciona, e com toda sua sabedoria tentar tirar proveito da melhor maneira possível."

-Em http://74.125.47.132/search?q=cache:UL-i-YpmL3UJ:www.nutseca.ufrn.br/AS%2520PREVIS%25D5ES%2520DE%2520CHUVA.doc+Conhecimento+popular+chuva&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=2, acessado em janeiro de 2009


27.10.08

Menos que trinta

,olhando pro monte de verões daquilo que não é mais, me impressiono. E ao chavão "meus pais estavam certos" digo nem tanto, pois que talvez eu não seja de experiência tanta quanto acredite, admito, mas acho mesmo, acredito, que tenho onde estacionar confiança em lugar onde não compartilhe teto.

Resgato da caixa que faz pensar um monte de coisa que julgo acerto, e um monte de coisa que adivinho erro. Mas meio que acredito e meio que dúvido que as coisas tendem a se corrigirem quando sabemos ou procuramos andar por onde acreditamos saber onde se pisa.

Espero.

Nem tanto no entanto nem quer dizer que tanto seja pouco. Pois que lembro algo que minha mãe acertou, considero, quando disse uma vez que o tomate podre cheira mais que o resto dos tomates.

Pois que olho pra minha cesta, e aperto os frutos quando algo cheira mal. Jogo tudo aquilo que identifico podre fora e separo aquilo que desconfio que pode apodrecer. ,às vezes acho que nem deveria trocar o cesto, e que deveria mesmo era jogar em lixeira qualquer tudo que desconfiasse podre, mas a vida é tanto de tudo que tenho medo de aproveitar menos que um terço, e gostaria, juro, de pelo menos colher alguns tomates que eu mesmo tenha plantado,

,por vezes colho,

20.10.08

O eterno normal em andar de bicicletas...

Escolho começar pelo depois no intuito de fazer diferença nesse mundo de bicicletas azuis. As bicicletas que quando antes eram vermelhas, quando antes verdes. Mas todas das mesmas cores.

Distantes não enxergo pernas pedalando. Não existem as pernas, só existem olhos e dedos indicadores. Os olhos olham pras bicicletas à direita, os indicadores indicam o seu lado esquerdo, e ninguém sabe pra onde está indo.

Eu também não faço idéia pra onde estou indo, vez ou outra pego minha bicicleta e ando no mesmo caminho. Vez ou outra tento forçar passagem pros lados... Forço uma corzinha diferente no guidão e tiro as rodas da minha bicicleta.

As pernas ainda estão em baixo de mim, mas elas estão em cima de um lugar diferente no mundo.

Vou empurrando disfarçadamente o normal pro lado de lá, quero andar com a bicicleta nas costas...

E tento, juro que tento, continuar andando olhando sempre pra frente.

23.9.08

Construindo pontos finais.

.Hoje começo escrevendo por ponto final. pois que percebo que quando escrito está. fica. e se apagado é. será lembrado. Decidido está. porque escrito foi. Ficou. colou. e agora acabou por não ter mais volta.

Foi que alguém inventou essa coisa de escrever. Acho que incomodou essa história de deixar as coisas lá atrás. Quando fizeram nem podiam ter noção. se você escrevia. colocava pra fora o que era só seu. perdia em suporte um pedacinho daquilo que tinha dentro de si. outros chamavam escolher.

Mas na minha opinião. Nem todo mundo concorda. Por que você faria. Espaço em branco é pra ser preenchido. Pode ser com caneta. com bits. ou com esquerda. ou direita. E depois de escrito. não sei se você concorda. perde um pouquinho de seu sentido. Lá atrás ficou. procure outra brancura pra preencher.

Depois de feito. pronto. Da próxima vez você faz diferente.
Ou pode até fazer igual. Só não esqueça que com três pontos juntos você faz coisa diferente...

Foi que alguém inventou essa coisa de escrever. eu acho que foi Deus,

14.9.08

um título qualquer

,sou um sujeito estranho que gosto de começar as coisas pelo meio, Meto uma vírgula no frente das coisas, invento um título qualquer pra dar cara de começo, e saio da cama com os dois pés juntos pra não dar margem ao azar, Tropeço vez ou outra um monte de vezes, e me coloco nesse risco riscando o rosto com um sorriso,

Minha testa tem alguns riscos em função disso,

,que venham mais alguns,

,acontece que sujeito de certezas grita incertezas sem ponto de interrogação, É estranho, mas é assim, Pois meio que tento modificar paisagens pintando as coisas com os olhos e fico com cara bovina ao ver certo virando errado, errado virando certo, e certo virando errado de novo,

,mas é assim porque começa com vírgula, e se você acha que tava entendendo é porque não leu direito,

,desse jeito acho que o melhor é preencher essa vida com um monte de vírgulas, porque assim empurro o ponto final pra bem longe daqui,

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10.9.08

O povo nas, bolhas, (epifania)

Não é possível calcular o ínicio, pois que aconteceu há tanto tempo e tão de dentro que não tem quem testemunhe. A falta de lembranças me faz crer ter começado em tempos de cabeças curtas. Acho então que começou quando era míudo.

Acho que não fiz sozinho, mas não tem como fazer isso sem ter escolhido. Talvez tenha sido em anjo que aconteceu, não sei. O que é de verdade? Estou em uma, bolha, já faz muito tempo. Se me colocaram lá, teve alguma hora em que tive que aceitar.

Com o tempo percebe-se não ser exclusividade sua, existem outros poucos. Alguns acham que as, bolhas, servem para proteger, mas, bolha, quando é, bolha, estoura fácil. A, bolha, serve pra separar, a, bolha, serve pra expor que somos diferentes.

Alguns não percebem as, bolhas, em volta de si mesmos. Os com olhos mais precisos percebem que os outros sempre estão do lado de fora, são as pessoas sem, bolhas,. Elas falam como que personagens de histórias em quadrinhos, tudo que é dito está escrito em, balões, distantes e limitados pelo pequeno quadrado daquele instante.

Somos diferentes daqueles porque as, bolhas, não deixam o que falemos fugir pra muito longe. Está tudo tão perto que por vezes ecoa em nossos ouvidos.

Algumas pessoas criam a, bolha, mais velhos que eu,
outras muitas as estouram para se misturar
poucas fazem a, bolha, crescer de novo


Eu as entendo, é díficil ter seu reflexo sobre tudo que se enxerga.

6.9.08

Pés no mundo

Imagem: Modèle Rouge, Magritte.


Quem não tira os pés de cima do mundo não chega a lugar nenhum. Fica naquela de colado e como que acostumado com o que vê, sempre acaba por não ver mais nada.

Eu que sou sujeito de pensamento longe, penso pra lá de distante disso.
Tiro meu sapatos, pra não ter peso nenhum nos pés, e corro descalço por aí...

Às vezes passo por relva e às vezes por pedregulho. Olho pro pé cheio de calo e unha encravada e meio que sinto vergonha e meio que sinto orgulho.

Quem não tira os pés de cima do mundo não chega a lugar nenhum. Escolhe conhecer um tudo que é menos menor que o resto.

26.8.08

Grande?

Era família grande. Mas era um tipo de família que só era grande porque podia pagar pelo adjetivo. Era um povo endinheirado que não gostava de nada míudo. Se perguntassem como uma família sem tio ou primo pode ser grande explicavam com toda pompa possível que era porque tinham uma longa história. Mas nesse caso longa história quer dizer que se pagou muito bem pra que alguém escrevesse em livro de capa dura um monte de causos de tempo que nem se tinha tanta certeza assim.

Mas de grande mesmo essa família não tinha nada. Gente rica não é muito boa com dividir as coisas. Essas famílias, que tem primo escapando pelo ladrão e com história tão antiga, que vira até mentira, só gente pobre mesmo tem.

Mas não é esse tipo de registro que se faz aqui... Essa é uma daquelas histórias que ficam nas entrelinhas, que a família grande em questão até pagaria pra apagar.

A família Franco Assis Albuquerque Luxemburgo, que de grande só tinha mesmo o nome, era cheia da grana, mas tanta grana que quando um menino se dizia homem, segundo suas tradições, podia escolher o qualquer coisa que quisesse ser.

Essa é a história de Pedro Franco Assis Albuquerque Luxemburgo.

Seu bisavô, Herculano Franco Assis Albuquerque Luxemburgo, aos doze anos já tinha decidido: "Quando crescer quero ser rico". Aos quinze com todas as letras, seu avô, João Franco Assis Albuquerque Luxemburgo, dissera: "Quero ser rico." E aos dezoito, seu pai, José Franco Assis Albuquerque Luxemburgo, gritara em plena festa de aniversário, enquanto contava qualquer das vantagens que só dizer o nome de família o dava: "RICO!!!!"

Era uma tradição de orgulho essa, e foi com muita apreensão que a família Franco Assis Albuquerque Luxemburgo esperava.

Doze anos, e Pedro Franco Assis Albuquerque Luxemburgo não fazia idéia do que seria;
Aos quinze não tinha muita certeza;
E a aos dezoito estava confuso.

Quando completou vinte anos, seus pais começaram a ficar preocupados, e acharam por bem pressionar o moço. Ele estranhou, -"Se era pra escolher qualquer coisa pra ser não seria melhor pensar bastante?" Explicaram que estavam só preocupados, que queriam o que fosse melhor pra ele, e que, afinal de contas, era pra decidir logo... (Como assim?)

De qualquer forma Pedro Franco Assis Albuquerque Luxemburgo perguntou se podia ser pássaro. Os pais estranharam pensando que o menino tinha ficado lelé da cuca e rapidamente criaram regras para o "que quisesse": "Quando dizemos, meu filho: Você pode ser o que quiser estamos falando de um trabalho, menino."

Pedro Assis Albuquerque estranhou, mas respondeu logo: "Então já sei!"
"Eu quero limpar janelas!"

Aquilo era esquisito por demais e a família, que de grande tinha a mãe, o pai e o avô doente com mais dois meses de vida, era só revolta. "Como assim limpador de janela?, porque filho meu não limpa nada!, como é que vou falar pras minhas amigas?, podia morrer sem esse desgosto!"

O menino explicou que achava bonito as coisas ficarem limpas e que nada o agradava mais que ver o pessoal da limpeza escolher pano, e sabão com todo cuidado... As janelas nunca ficariam sujas e um monte de gente poderia enxergar por elas, pois havai toda uma coisa bonita quando se olhava por um vidro sem mancha nenhuma.

Alguém pensou em dizer que era pro menino dizer "rico" logo e acabar com aquela palhaçada, mas perceberam, meio sem graça, que estavam muito ocupados e que aquilo poderia ser deixado pra depois.

Fato é que dois meses depois a família grande ficou só com duas pessoas. O avô falecera sozinho em um dia que os pais do rapaz estavam em viagem e Pedro Franco Assis Albuquerque Luxemburgo foi fazer aquilo que deu na telha sem perguntar nada a ninguém...

Ouvi falar esses dias, em uma dessas histórias que com o passar do tempo vai virar até mentira, que seu Pedro se tornou um limpador de janela de mão cheia. Era um daqueles que ficam pendurados em prédio, sabe? E era tão bom, mas tão bom, que ninguém nunca via sujeira, nunca mesmo. Era como se o vidro nem existisse. E justamente por isso ninguém lembrava que alguém limpava aquele mundaréu de janela. Mas o que era mais verdade que aquilo tudo é que seu Pedro teve três filhos e cada um deles teve três filhos...

Aquilo sim era família grande.